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12.8.10

“Testemunhos são falhos. Provas científicas, não”

ENTREVISTA: Francisco Cembranelli, promotor

O promotor paulistano Francisco Cembranelli, 49 anos, já era consagrado em mais de mil júris quando virou celebridade ao liderar as investigações de um dos casos mais rumoroso da década, a morte de Isabella Nardoni, cinco anos. Uma das atrações do Encontro Nacional dos Promotores do Júri e do Encontro Estadual do Ministério Público, em Gramado, ele conversou com ZH por e-mail:

Zero Hora – O senhor conseguiu condenar o casal Nardoni pela morte de Isabella sem testemunho visual do homicídio e sem confissão. O que mudou para permitir essa condenação?

Francisco Cembranelli – A maioria dos crimes não conta com testemunhas presenciais nem confissões. Conseguimos provas científicas, umas melhores do que outras, para convencer o júri. As perícias técnicas estão se modernizando.

ZH – Em Porto Alegre temos um caso (assassinato do Eliseu Santos, secretário municipal de saúde) em que os réus estão presos sem testemunho visual, sem telefonemas que os comprometam e sem confissão. Gostaria que o abordassse esse tipo de júri.

Cembranelli – Existem outros meios para provar o que a acusação alega. Testemunhos, muitas vezes, são falhos. Provas científicas, não. O importante é evoluirmos e não ficarmos tentando conseguir condenações como se estivéssemos nos anos 60, com fotografias em preto e branco e discursos bonitos (e vazios de conteúdo probatório).

ZH – Que mudanças pelas quais passou ou passará o júri?

Cembranelli – Existe um projeto no Congresso prevendo mudanças. Pensam em aumentar os jurados para oito (hoje são sete que decidem o destino do réu) e permitir que eles conversem antes da votação. Não sou muito simpático a isso, a não ser que o MP tenha o seu papel aumentado na investigação, mais mobilidade para produzir a prova, a estrutura das polícias científicas cresça e outros avanços. Do jeito que querem fazer, a perplexidade da sociedade com a impunidade só vai crescer.

http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a3002935.xml&template=3898.dwt&edition=15279&section=1001

20.7.10

Podval e Cembranelli se enfrentam no júri do caso Celso Daniel


Defesa e promotoria que atuaram no julgamento dos Nardoni agora decidem a sentença do empresário Sérgio Gomes da Silva


Depois de terem protagonizado o julgamento do casal Nardoni, em março deste ano, Francisco Cembranelli e Roberto Podval vão se enfrentar novamente.


O promotor Francisco Cembranelli estará no júri popular do empresário Sérgio Gomes da Silva, acusado de ser o mandante do assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel (PT-SP), em 2002.


A defesa do empresário, conhecido como "Sombra" e é acusado por homicídio triplamente qualificado, será feita pelo advogado criminalista Roberto Podvalatuou, que atuou na defesa de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, condenados a, respectivamente, 31 e 26 anos de reclusão pelo assassinato da menina Isabella, filha de Alexandre.


Francisco Cembranelli e Roberto Podval cursaram direito na FMU na mesma época.


Podval defendeu casos polêmicos, como o do médico cirurgião plástico Farah Jorge Farah, acusado de matar e esquartejar sua amante, Maria do Carmo Alves. O médico foi condenado a 13 anos de prisão. Podval recorreu a sentença e, desde 2007, Farah conseguiu um habeas corpus e está em liberdade provisória. Desde o início de sua carreira, Podval participiou de 16 julgamentos dos quais venceu 13.


Cembranelli teve sua primeira atuação com grande cobertura da mídia no caso Nardoni, ocasião que recebeu muitos elogios por sua atuação, porém já participou de mais de 900 júris populares.


Relembre o caso Celso Daniel


Celso Daniel foi morto após sair de um restaurante em São Paulo. O então prefeito da cidade de Santo André, no ABC Paulista, estava na companhia do empresário Sérgio Gomes da Silva quando seu carro foi cercado e ele levado pelos bandidos.


O corpo do prefeito foi encontrado com 11 tiros na Estrada das Cacheiras, altura do Km 328 da rodovida Régis Bittencourt.


18.7.10

“Queria devolver Isabella para a mãe”


O promotor de Justiça do 2º Tribunal do Júri de São Paulo, Francisco Cembranelli, 47, ganhou notoriedade com o caso Isabella Nardoni e hoje por onde passa é reconhecido pelos brasileiros, que demonstram intensa simpatia pelo profissional. Em Goiânia, a situação não é diferente. Cembranelli esteve ontem pela manhã na sede do Ministério Público Estadual (MPE), ministrando palestra sobre “Técnicas de Atuação do Tribunal do Júri”. O encontro integrou o I Curso de Formação para Ingresso na Carreira do MP de Goiás, que é coordenado pela Escola Superior do órgão. A palestra, que começou por volta das 8h30, só terminou ao meio-dia. Em entrevista ao DM, Cembranelli falou sobre as técnicas de atuação no Tribunal do Júri e como estas foram empregadas no caso Isabella Nardoni. Afirma que a condenação de Ana Jatobá e Alexandre não lhe surpreendeu e que nunca teve dúvidas da autoria do casal.

Ressalta que teve sua rotina alterada por causa do caso Nardoni e da fama conquistada, mas nunca se afastou do júri naqueles momentos críticos da investigação. Cembranelli diz que se pudesse voltar ao anonimato absoluto, devolveria Isabella a sua mãe, a bancária Ana Carolina Oliveira. Prefere não fazer comentários sobre o caso do goleiro Bruno. Acredita que a pena privativa de liberdade no Brasil assim como em países da Europa recupera e aguarda a apresentação de soluções por parte daqueles que criticam a medida.

DM - São precárias ainda as técnicas brasileiras para atuação no Tribunal do Júri?

Cembranelli - Não digo que são precárias, mas que falta um aparelhamento maior nos institutos de polícia científica. Equipamentos de última geração ainda são raros e quando existem são utilizados em poucos casos. Não temos utilização em massa desses equipamentos que são trazidos a um custo bastante elevado. Tento sensibilizar nossos governantes no sentido de aparelhar melhor para que a sociedade tenha instrumentos na mão de um promotor para fazer Justiça, mas ainda temos que caminhar e avançar muito.

DM -O caso Isabella Nardoni é um exemplo de que essas técnicas foram bem utilizadas?

Cembranelli - É exatamente um caso extremamente emblemático. A polícia científica de São Paulo e o Instituto Médico Legal (IML) fizeram um trabalho primoroso que permitiu dar uma ideia bastante clara e precisa aos jurados do que teria acontecido naquela trágica noite e fez com eles formassem convicção e chegassem a um veredicto compatível com o interesse social. A perícia foi importante e continua sendo no nosso dia a dia, e temos que crescer. Temos que caminhar em direção às polícias mais modernas do mundo, que utilizam há bastante tempo esses equipamentos. No Brasil, eles são considerados novidades.



DM -O que mudou após o caso Isabella Nardoni, já que o senhor estava sempre na mídia?

Cembranelli - Tive a minha rotina alterada, mas nunca me afastei do júri nem naqueles momentos críticos da investigação, nos primeiros dias, quando houve aquela louca corrida da mídia brasileira pelo ibope e eu sempre estive atuando, fazendo o que gosto, que sei fazer e contribuindo. Houve uma alteração da minha rotina por conta desse caso, da fama que foi conquistada. É um preço bastante elevado, mas se pudesse voltar ao anonimato absoluto e devolver a Isabela a sua mãe eu faria com toda tranquilidade.

DM -Em algum momento o senhor sentiu sensibilidade com o caso?

Cembranelli - Ah, sim! Porque esse caso foi sofrido para muitas pessoas próximas. Havia um acompanhamento intenso. As pessoas se emocionaram com tudo que havia acontecido. Foi um julgamento muito díficil de cinco dias e praticamente ninguém dormiu, não conseguiu se descontrair, mas isso faz parte, tentamos vencer aquela dificuldade e mostrar à população que é possível, sim, a construção de uma sociedade mais humanizada e uma Justiça mais eficiente, que é o objetivo de todos nós.

DM -O senhor duvidou da autoria do casal Nardoni em algum momento?

Cembranelli - Claro que eu acompanhei com tranquilidade o fechamento da investigação e sem que isso tivesse ocorrido não seria possível ter uma ideia precisa do que havia acontecido. Num primeiro momento havia a suspeita, que eu até torci para que não se confirmasse porque é bastante chocante a solução que foi dada, mas a verdade é que eu, com tranquilidade, formei a minha convicção após o trabalho, a finalização do procedimento investigativo e aí sim, com a convição formada, eu propus a ação penal. Ela foi recebida pelo Judicário, dei início a um processo. Eles tiveram a oportunidade de se defender exatamente como determina a Constituição. O caso foi a júri popular, um julgamento popular, democrático, livre e aberto. As partes puderam apresentar suas provas, alegações e o júri formou a sua convicção. Isso é democracia em qualquer lugar do mundo, aconteceu também neste caso

DM - Em nenhum momento houve confissão dos reús nem testemunhas oculares. Mesmo assim o casal Nardoni foi condenado. Em que momento o senhor teve a percepção e a convicção de que eles (Ana Jatobá e Alexandre) eram os autores do crime?

Cembranelli - Quando eu ofereci a denúncia a situação já era bem clara, depois a prova foi produzida em juízo e ela confirmou o trabalho investigativo. Tivemos complementações importantes que foram feitas ao longo de dois anos de processo, tudo de modo a construir um acervo probatório grande que seria oportunamente mostrado ao conselho de sentença, como de fato foi. E aí sim eles formaram um juízo de valor como eu havia formado e julgaram com tranquilidade. A decisão não me surpreendeu, era esperado, eu nunca tive dúvidas de que aconteceria exatamente como aconteceu e a sociedade saiu satisfeita com esse desfecho.

DM - O caso do golerio Bruno caminha para a conclusão do inquérito sem a prova material do crime, o corpo de Eliza Samudio. O senhor acredita na condenação mesmo assim dos envolvidos no caso?

Cembranelli - Não conheço detalhes deste caso a não ser aquilo que é divulgado pela mídia. Não tenho costume de falar de casos que estão com outros colegas, eu respeito, como também não gosto que falem de casos que estão comigo. Só o promotor natural do caso é quem tem uma visualização panorâmica de tudo, mas tenho certeza, conheci recentemente colegas em um evento em Minas Gerais, eles são extremamente competentes, vão certamente propor a ação penal da maneira como a lei autoriza e vão conseguir um triunfo da Justiça.

DM - A sociedade se comove e exige uma pena maior do que 30 anos para casos de criminosos como o casal Nardoni. O senhor acredita que a redução da pena colocará em breve os Nardoni de volta às ruas?

Cembranelli - Não acredito. Eles têm lá uma forma de cumprimento de pena, os benefícios fixados, eles vão pleitear isso, mas isso não me preocupa. A preocupação é apenas produzir melhor. Se a lei apresentar falhas, ela precisa ser corrigida, mas pelos responsáveis, e não exatamente pelos promotores.

DM -No Brasil, a pena recupera?

Cembranelli - Acredito que sim. As pessoas criticam a pena, a imposição de penas privativas de liberdade, mas em nenhum lugar do mundo, até nos países mais civilizados, se encontrou outra solução. Na Suíça existe pena de prisão, no Japão e nos Estados Unidos, e eu estou aguardando que esses que criticam a pena privativa de liberdade apresentem soluções. Nós temos claro que é preciso reservar cadeia para aqueles que cometem crimes graves, mas é a maneira como a sociedade entende cabível reagir a essas agressões.

DM -Em relação ao Tribunal do Júri, o senhor acha que os jurados devem desconsiderar a emoção na hora de decidir o seu voto?

Cembranelli - Tudo é levado em consideração. O jurado tem a livre liberdade de convencimento. Ele pode opinar da maneira como ele entende cabível. Ele traz todo um histórico de vida, que permite formar aquele juízo de valor. São os grandes defensores da manutenção do júri no Brasil e vêm demonstrando isso em casos emblemáticos.

DM -Como o senhor avalia o preparo técnico dos jurados no Brasil?

Cembranelli - É um universo muito grande. No meu tribunal temos hoje pelo menos 6 mil jurados cadastrados, são muitos. O jurado é um cidadão. Ele também lê jornal, tem sua história de vida. Ele traz isso para o julgamento e tem proferido decisões que eu considero justas.

DM - Como o senhor lida com a fama após o caso Nardoni? Isso te incomoda?

Cembranelli - Não, não me incomoda e isso também não me motiva. Eu apenas vejo isso como uma demonstração carinhosa das pessoas que conheceram meu trabalho. Continuo no júri, vou continuar porque essa é minha função e eu acredito que é assim que me considero útil para a sociedade.

http://site.dm.com.br/noticias/cidades/-queria-devolver-isabella-para-a-mae-

17.7.10

Promotor do caso Isabella vai atuar no juri de Celso Daniel

Cembranelli deve assumir julgamento de acusados do crime contra o ex-prefeito

O promotor Francisco Cembranelli, que ganhou projeção por ter atuado no caso da morte da menina Isabella Nardoni, deve ser indicado nos próximos dias para outro processo polêmico: o que apura a morte de Celso Daniel (PT-SP), ex-prefeito de Santo André.

A Procuradoria-Geral de Justiça de São Paulo quer que ele atue no júri popular em que sete réus serão julgados pelo assassinato do petista, que ocorreu há oito anos, segundo informações da colunista Mônica Bergamo, do jornal Folha de S. Paulo.

O júri do caso está previsto inicialmente para agosto. Neste mês, de acordo com um promotor, Cembranelli estaria de férias. Contornado este problema, ele deve assumir definitivamente a condução do júri.

Os réus serão julgados por homicídio duplamente qualificado (motivo torpe e sem chance de defesa da vítima). A pena máxima é de 30 anos. Foram pronunciados: Sergio Gomes da Silva, José Edson da Silva, Elcyd Brito, Marcos dos Santos, Ivan Rodrigues – conhecido como "Monstro" -, Itamar dos Santos e Rodolfo Oliveira.Caso Celso Daniel

O ex-prefeito foi entrado morto em 2002, em uma estrada de terra de Juquitiba (SP), com marcas de tortura e com sinais de oito tiros. Ele estava sequestrado há dois dias.

Celso Daniel e Sérgio Gomes da Silva, um dos indiciados, haviam jantado em um restaurante em São Paulo e voltavam para Santo André em uma Pajero blindada, conduzida pelo ex-segurança. No caminho, o carro foi interceptado e o prefeito foi levado por sete homens armados.

Para o Ministério Público, o sequestro foi simulado pelo empresário, que encomendou a morte do amigo. Gomes da Silva, que responde em liberdade, nega com veemência e afirma também ter sido vítima.

http://noticias.r7.com/brasil/noticias/promotor-do-caso-isabella-vai-atuar-no-juri-da-morte-de-celso-daniel-20100717.html

21.6.10

II Intensivo de direito penal com Francisco Cembranelli

Este grande promotor, estará pela primeira vez no Nordeste , na cidade de João Pessoa para Ministrar o II Intensivo de DIREITO PENAL , a convite de Direitoseminários. Será uma oportunidade única para os estudantes de direito aprenderem com ele, que é considerado o " HOMEM QUE FEZ JUSTIÇA NESTE PAÍS ". Sua postura e o senso de profissionalismo fizeram com que os brasileiros passassem a ter na figura de DR. CEMBRANELLI , espelhada a imagem de uma verdadeira JUSTIÇA.



http://www.direitoseminarios.com.br/crbst_1.html

4.5.10

Entrevista exclusiva com o Promotor Cembranelli.


"O blog Caso Isabella Oliveira Nardoni tem o orgulho de apresentar a todos que nos acompanham na cobertura do Caso Isabella uma entrevista exclusiva com o Promotor Cembranelli.

O Promotor é ,como ele faz questão de frisar, apenas um profissional que cumpriu seu papel da melhor forma possível, mas no inconsciente coletivo da nação brasileira tomou forma de heroi, não por ter superpoderes, mas pela atitude destemida de fazer a Justiça prevalecer.

Nesta entrevista ele nos mostra além do excelente profissional que é , também o lado mais humano que se dedica a cada caso com extrema competência mas também se comove com o sofrimento da família das vítimas e nos abre uma frestinha de seus gostos pessoais como música e outros .

O promotor Cembranelli é um homem convicto quando se trata de trabalho, e foi essa convicção que conquistou e fez uma nação inteira renovar suas esperanças na JUSTIÇA.

Ao Promotor toda nossa admiração , pelo seu trabalho e pela atitude honrada de se manter próximo a sociedade a quem presta conta de seu trabalho que é promover Justiça.

A entrevista foi feita via e-mail e o Promotor mesmo atarefado não se furtou a responder todas as perguntas que foram elaboradas em conjunto por todas as meninas do Blog. , a seguir a entrevista":

Blog- O senhor acha que a repercussão do caso Isabella e o resultado satisfatório no sentido de dar uma resposta à sociedade pode ser transformador e ter fortalecido a confiança da população na JUSTIÇA? Ou foi um fenômeno isolado a indignação da população diante desse caso específico?


Cembranelli - Sou otimista e acredito que um caso como o de Isabella sempre contribui para que a confiança na justiça aumente. Não há duvida de que muito ainda precisa ser feito e temos grandes problemas que precisam ser resolvidos. Mas a sociedade, ainda indignada com os maus exemplos que vê a todo momento, felizmente, ainda cultiva a esperança de que vai ter um justiça forte e voltada mais para o bem estar social.

Blog - O senhor não gosta muito de ser chamado de heroi, mas será que o caso Isabella teria o mesmo desfecho caso o promotor fosse outro? Mesmo com o trabalho primoroso da perícia?

Cembranelli - Em todas as carreiras existem bons e maus profissionais. Normal! Desde o início da minha vida no júri, tenho trabalhado duro para estar num patamar elevado profissionalmente. Se consegui, pode ter certeza de que nada foi por acaso. Se outro Promotor alcançaria o mesmo resultado? Fica muito difícil responder, até pelo fato de cada um ter sua forma de trabalho. O sucesso é conquistado com talento, dedicação extrema, bom senso, sensibilidade, respeito, confiança, experiência, um pouco de sorte e muito, mas muito amor pelo que faz.

Blog- Houve recentemente o caso de uma procuradora de justiça que adotou uma criança de dois anos submetendo-a a toda espécie de violência física na frente de empregados e vizinhos, quando descoberta ao ser perguntada do que achava e que poderia ser processada pelos seus atos, ironizou dizendo que "podiam vir 20 (processos), azar!" . Até que ponto todos temos os mesmos direitos e deveres diante da justiça. Ela funciona sempre?


Cembranelli - Nem importa se é Procuradora ou não. O que sempre digo é que a lei existe e deve ser respeitada por todos nós, sem exceção alguma. Se houver infringência ao que prescreve a lei, que o infrator pague pelo que fez. Não se pode construir uma sociedade civilizada se alguns, mais poderosos, gozam de benefícios e as cadeias estejam reservadas apenas para os mais fracos e oprimidos. Ninguém está acima de lei e devemos lutar efetivamente para que isso seja cumprido.


Blog- O senhor trata a todos com muita cordialidade e simpatia, é uma pessoa muito humana no sentido de tratar bem ao próximo seja quem for. Esse tratamento foi confundido injustamente por alguns quando disseram que o senhor gosta de holofotes . Essa empatia com o ser humano é um traço da sua personalidade , convicção religiosa, pessoal ?


Cembranelli - Não gosto de holofotes como alguns desavisados costumam apregoar. Nunca procurei a imprensa para agendar entrevistas. Costumo atender a todos os que me procuram porque entendo a relevância do trabalho que fazem na divulgação dos fatos. Nunca pedi que os fatos do caso Isabella fossem divulgados. E atender a todos "com cordialidade e simpatia" deveria ser característica do ser humano de modo geral e não privilêgio de alguns.


Blog -O senhor já atuou como promotor em outros casos envolvendo violencia contra crianças? Poderia destacar algum destes casos?

Cembranelli -Inúmeros. É uma situação muito mais comum do que todos imaginam. E mais de 90% dos casos, até mesmo em países mais desenvolvidos, os responsáveis pela violência são pessoas da própria família (pais, mães, tios, padrastos, etc). Tenho um processo comigo, recentemente instaurado, de um pai que matou o filho, esganando-o, apenas porque ficou irritado com o choro contínuo do bebê durante à noite. Incrível, mas é verdade mesmo!

Blog -Durante sua carreira, quais os crimes que mais o marcaram e porque?

Cembranelli -Quando era Promotor do Júri de uma cidade do interior, houve um julgamento que fiz de um rapaz que, sob efeito de drogas, mandou 6 adolescentes (entre 10 e 14 anos) se deitarem no chão de uma rua. Após, deu um tiro na cabeça de cada um. Foi difícil lidar com o sofrimento dos pais daquelas crianças. Já acompanhei a perícia em locais de crimes e também é chocante quando uma mãe chega e fica desesperada ao encontrar o filho assassinado. A morte, ainda que tratada profissionalmente por quem é do Júri, sempre traz uma carga emocional fortemente negativa. Precisa realmente gostar do que faz para sobreviver tanto tempo lidando com homicídios.

Blog -Com a experiencia de cerca de 1000 júris poderia nos dizer se é frequente a negativa de autoria ser adotada como tese de defesa, mesmo em casos com forte conjunto probatório ?

Cembranelli -Sim, é a tese mais procurada pelos acusados. Quando assumem, alegam legítima defesa, ou seja, sob a ótica dos réus, eles são sempre inocentes. O Promotor está constantemente errado ao pedir suas condenações. Normal, afinal os réus não prestam compromisso de dizer a verdade, podendo até ficar em silêncio.

Blog-Em determinados momentos sentíamos que o Sr tinha muito carinho por Isabella, insclusive o senhor se referia a ela por "pequena Isabella"Foi impressão nossa, ou existia esse sentimento?

Cembranelli -A atuação no caso Isabella sempre me levou a respeitar os sentimentos daqueles que efetivamente a amavam. O sofrimento de todos foi grande e era minha obrigação ter carinho não só pela vítima como por sua mãe. O fato de ser o Promotor do caso não me desobrigava de ter consideração, até porque, antes de ser Promotor, sou pai e um ser humano como outro qualquer.


Blog- Houve uma primeira denúncia do MP pedindo a prisão preventiva do casal, que não foi feita pelo Sr ? Foi considerando essa denúncia que o casal Nardoni conseguiu o ÚNICO Habeas Corpus ?

Cembranelli - Não houve uma "primeira denúncia". Houve sim uma manifestação do Promotor de plantão no dia sobre o pedido de prisão temporária feito pela Dra. Renata Pontes. O juiz acolheu o pedido que acabou, posteriormente, sendo cassado por meio de uma liminar pedida em um HC. Eu não estava no forum no dia em que o IP foi distribuído por estar estudando um júri que teria no dia seguinte.

Blog- Durante o julgamento Alexandre Nardoni tentou desviar a atenção sobre a culpa dele lançando uma calúnia onde diz que o Sr assistiu quando ele foi pressionado a confessar e aceitar um acordo. O senhor assistiu os primeiros depoimentos dos acusados?Isso procede?
Cembranelli - Estive presente nos depoimentos prestados pelos acusados quando eles foram interrogados pela Delegada de Polícia. Sempre fui o único Promotor do caso Isabella desde o início, salvo quando da manifestação sobre a prisão temporária acima relatada. O que disse o acusado no julgamento foi uma autêntica "canalhice", como disse para ele próprio em plenário, pois isso nunca aconteceu. Não houve nenhuma pressão por ocasião dos interrogatórios policiais, pois os advogados estavam o tempo todo ao meu lado e jamais permitiriam que isso acontecesse.

Blog- Todos sabem que o senhor gosta de Billy Holiday , o senhor escuta outro tipo de música mais popular? Qual?

Cembranelli - Adoro Billy Holiday e devo ter uns 20 cds dela. Mas gosto também de música popular brasileira e alguns grupos como U2, Oasis e outros. Como gosto de correr, tenho umas 500 músicas eletrônicas no Ipod, pois acho que elas motivam. Só não gosto muito de pagode e música sertaneja.

Blog- Se não fosse promotor público o que gostaria de ser?

Cembranelli - Quase fiz faculdade de Oceanografia. Gostava do mar, dos animais e achava que poderia ser um bom profissional na área. Hoje, se tivesse e pudesse escolher outra profissão, como num passe de mágica, talvez escolhesse ser um violinista competente. Sempre que posso, durante os intervalos dos julgamentos, ouço um pouco de música clássica interpretada por grandes violinistas. Faz muito bem para o espírito.

Blog- Tem algo que o senhor ainda não disse e que acha importante dizer às pessoas, mídia ou população em geral?

Cembranelli - Promotor: Gosto muito de ter meu trabalho reconhecido pelas pessoas de modo geral. Afinal, sempre trabalhei duro para produzir o melhor, respeitando minha consciência e a lei. Mas, sinceramente, nunca precisei de fama para me motivar. E esta fama que veio com o caso Isabella teve um preço muito, mas muito alto que nunca nenhum de nós jamais consideraria pagar. Existem tantos que pensam que estou deslumbrado com isso. Coitados! Não me conhecem para me criticar. Tenho uma vida dedicada ao júri, que ainda não terminou, me preocupando apenas e tão somente em cumprir a missão que, constitucionalmente, cabe a um Promotor de Justiça da melhor maneira possível.

10.10.09

Promotor vê hipotese do julgamento acontecer este ano

O promotor do caso Francisco Cembranelli admitiu em entrevista a possibilidade do julgamento ocorrer ainda este ano.Tudo depende do tipo de diligências requisitadas pela defesa.



Nesta fase, as partes devem especificar as testemunhas e requisitar qualquer tipo de diligência. Estas diligências podem ser pedidos das mais variadas naturezas, como, por exemplo, que se faça contra-prova de alguma prova.

Como este procedimento pode dar ensejo à pedidos meramente protelatórios, o juiz tem a faculdade de aceitá-los ou não.

Segundo o promotor, até o momento a defesa vem abusando de tais manobras com "o objetivo de atrasar o processo e fazer com que o caso caia no esquecimento da população"

O prazo para apresentação do rol de testemunhas e dos pedidos de diligências já terminou. Portanto, muito em breve saberemos o que foi requisitado, se o pedido foi deferido pelo juiz que, finalmente, deverá marcar a data do julgamento.

12.8.09

O Promotor - Doutor Francisco Cembranelli




O promotor Francisco Cembranelli está acostumado a lidar com paradoxos. Filho do meio entre três irmãos, era quieto e tão tímido que sempre se sentava no fundo da sala de aula. Só encarava a lousa quando não conseguia ludibriar a professora, encolhendo-se atrás de um colega. De certa forma, ao se esconder, protegia-se da atenção que até hoje o seu olho esquerdo desperta.





Era domingo de carnaval de 1963. Com 2 anos, Cembranelli, que nasceu em São José do Rio Preto, correu atrás de um cão num terreno ao lado da casa da família, em Leme, interior paulista. No caminho, caiu num tanque com mistura de cal e água. Perdeu a visão por três meses e ficou com seqüelas.





E foi contra a timidez o primeiro embate de Cembranelli. Ao assumir seu posto no Ministério Público cobriu férias de um colega do Tribunal do Júri, onde são julgados os crimes contra a vida. Uma função que exige domínio de palco, habilidade para manter a atenção e para persuadir sete jurados. Estudou o processo e pediu ajuda a colegas. Decidiu pedir transferência se fracassasse.





A profissão é a mesma do pai, Sylvio Glauco Taddei, que costumava trabalhar madrugada adentro. Para dar continuidade aos estudos de Cembranelli, a família se mudou para São Paulo, onde ele freqüentou as Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU). Palmeirense, Taddei queria o filho como companheiro de paixão, mas a época de Pelé fez de Cembranelli um santista.





Ao caso de estréia, em que o júri condenou o réu por 5 votos a 2, seguiram-se outros 60 só no primeiro mês de trabalho. Um treino intensivo contra a timidez. Prestes a completar 20 anos de carreira e 900 júris depois, Cembranelli imposta voz diante dos jurados, usa braços e mãos. O caso Isabella é o de maior repercussão que já caiu em suas mãos, mas ele não é novato em processos polêmicos. Em 2004, atuou no júri de três policiais que executaram o dentista Flávio Sant’Ana, de 24 anos. Os réus pegaram penas de até 17 anos.





O amor enfrentou conflitos. O promotor apaixonou-se por uma defensora pública que conheceu no tribunal. No primeiro “combate”, Daniela Sollberger levou a melhor. No segundo, recebeu o troco. Não houve o terceiro. Apaixonada, pediu transferência. Três anos mais tarde, em 21 de setembro de 1996, Daniela virou Sollberger Cembranelli.





A vida desse promotor é tão marcada pelo paradoxo que até seus filhos, de 7 e 8 anos, percebem. “Por que o pai (no trabalho cotidiano) pede para prender e a mamãe pede para soltar?”, perguntam os meninos. Tarefa mais difícil do que explicar isso aos filhos talvez seja encerrar o caso Isabella.

O promotor de Justiça da cidade de São Paulo Francisco Cembranelli afirmou que pretende fazer justiça no caso Isabella Nardoni. "Farei o que a sociedade espera que seja feito em um caso como este. Farei, através de provas, justiça", disse. Cembranelli reforçou a sua posição sobre a culpa do casal Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá na morte da filha. "Eu trabalho com provas e fatos e não com suposições. Eu trabalho com o que existe. E o que existe incrimina o casal Nardoni", afirmou.





Apesar de não apontar as razões pelas quais o casal teria matado a filha, Cembranelli afirmou que não há necessidade legal de esclarecer o motivo, enquanto há provas cabais que comprovam como o fato aconteceu. "Eu tenho a prova de que o casal se desentendeu dentro do carro, eu tenho a prova de que ela (Isabella) foi agredida dentro de casa, que a janela foi cortada e que a menina foi jogada de lá", explicou. O promotor afirmou que falará sobre tudo o que sabe somente durante o julgamento do casal.





Durante palestra, o promotor explicou para cerca de 500 profissionais e estudantes da área do direito, todo o trabalho que foi realizado pelo Ministério Público (MP), até o momento, para desvendar o crime que chocou o Brasil. Segundo Cembranelli, a promotoria chegou a estudar a versão apresentada pelo casal, de que haveria uma terceira pessoa dentro do apartamento, mas que devido às provas, esta versão não se confirma.





Para justificar sua opinião, Cembranelli relembrou a fralda encontrada dentro de um balde, no apartamento do casal. Segundo o promotor, a fralda havia sido lavada de tal forma que os vestígios de sangue só puderam ser percebidos quando em contato com o reagente. "Se houvesse uma terceira pessoa dentro do apartamento, seria uma pessoa bastante cautelosa, pois tomou o cuidado de lavar a fralda antes de deixar a cena do crime", afirmou.

Reações do casal


O promotor também sobre as lágrimas derramadas pelo casal durante a entrevista ao Fantástico, pouco tempo depois do crime. "Eu acompanhei pessoalmente o interrogatório policial do pai e da madrasta. Em 12 horas de depoimento, nenhum deles derramou uma lágrima", contou.





Cembranelli afirmou também que estranhou a reação de Alexandre Nardoni ao perceber que sua filha estava desacordada no andar térreo do prédio. Conforme o promotor, mesmo vendo que a menina ainda estava com vida, Alexandre estaria preocupado com o desaparecimento de objetos dentro do imóvel. "Quando a polícia chegou e ele (Alexandre) percebeu que a menina estava com vida, ele teria virado para a mulher e dito 'sobe com um policial e vai ver se está faltando alguma coisa no apartamento'", disse.

Escrúpulos


O promotor também explicou porque optou por não ouvir o depoimento do irmão mais novo de Isabella, Pietro, de três anos de idade, que estava dentro do apartamento quando tudo aconteceu.Conforme Cembranelli, se Pietro prestasse depoimento, mesmo que de forma infantil, este fato poderia lhe causar sérios danos emocionais no futuro. "Em nenhum momento cogitei ouvi-lo. Amanhã ele será um adolescente ou adulto e terá de conviver com o fato de que um promotor de justiça arrancou dele provas, sem que ele pudesse opinar, que incriminavam seus pais", disse.